Memória e missão · Colômbia

Um passo audacioso, um grande salto para os Eudistas

120 anos « nas terras do Senhor dos Milagres » — 1906–2026

« Corde Magno et animo volenti »

Tradução de leitura do documento espanhol. As fotografias e a diagramação estão disponíveis no PDF original. As incoerências identificadas na fonte são assinaladas no texto.

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Apresentação

« Quando, em 30 de maio de 1906, quatro “cavalheiros” eudistas saíram de Santa Fe de Antioquia e chegaram a San Pedro de los Milagros, jamais imaginaram que aquele pequeno deslocamento geográfico teria consequências incalculáveis para sua Congregação. Vinham cumprir uma missão aparentemente transitória: transferir o Seminário Menor de Santa Fe de Antioquia para aquela localidade. Uma missão simples, cuja execução apenas começava. » Quando nos esforçamos para fazer o que, em nosso íntimo, parece necessário e decisivo diante de Deus, recebemos um acréscimo interior e exterior. Podemos partir apenas para cumprir um compromisso externo e, de repente, sentir-nos interiormente impelidos para algo muito mais importante e essencial. Recebemos um « dom do céu ».

Cumprida aquela missão, uma nova aurora despontou para a Congregação Eudista, abrindo um horizonte e um campo de ação de amplíssimas dimensões. A aldeia escondida de San Pedro tornou-se um rochedo de onde alçar voo, uma plataforma de lançamento para novos céus e novas terras. Até então, os Eudistas haviam escalado montanhas, navegado por mares e rios, peregrinado por cumes e vales. Chegara a hora de voar para as alturas e exercitar seus alunos na prática cansativa, mas fascinante, da audácia.

A Colômbia do século XIX, como a França no final daquele século, sofreu os estragos do fanatismo religioso, do radicalismo partidário e de uma hegemonia social excludente. A maioria dos alunos do Seminário Menor certamente jamais esqueceu a lição de audácia de seus mestres, que semearam em seus espíritos tolerância, abertura e solidariedade. Com delicadeza e dedicação, aqueles pioneiros formaram seus alunos diocesanos na arte e na ciência da « astronáutica » humana e cristã.

De maneira surpreendente, aquele ninho de águias em formação recebeu jovens com uma vocação eudista nascente. Graças à ampla visão e à generosa solidariedade de dois bispos de Santa Fe de Antioquia, o Seminário Menor tornou-se o seio onde essas vocações cresceram. Seminaristas e junioristas partilhavam o mesmo pão da ciência e da fé. Impulsionados pela coragem de Adolfo Macé, pela afabilidade de Ernesto Dodard, pela graça de Pedro Buffet, pela valentia de Joaquín Evanno, pelo prestígio de Antonio Gastón, pela vivacidade de Joaquín García Benítez, pela musicalidade de Yvo Andrieux e pela espiritualidade de José Crespel, aqueles jovens alçaram voo para os cumes, superaram o abismo dos preconceitos e atravessaram as fronteiras que os impediam de ser ecumênicos, universais, em uma palavra, cristãos.

Há cem anos a Providência ensina aos Eudistas que a audácia de espírito e a intrepidez nas iniciativas não se limitam a realizações de curto alcance. São chamados a preparar e concluir projetos originais e ousados, a discernir e formar apóstolos de grande envergadura. Sobre os ombros daqueles « gigantes », os Eudistas do século XXI podem enxergar mais claramente o horizonte. Eles os animam a escrever uma nova história eudista cheia de audácia. De seus túmulos próximos, continuam a velar pela obra empreendida com grande sacrifício e concluída com imensa alegria.

Gerardo Velásquez M., eudista, falecido.

O Seminário Menor, prelúdio do juniorato eudista

No início do século XX, mais precisamente em 1904, Santa Fe de Antioquia enfrenta uma situação que ameaça seu próspero seminário, dirigido pelos Eudistas que ali chegaram em 1888. Torna-se urgente transferir pelo menos o Seminário Menor para um clima mais favorável. O padre Félix de Martini escreve ao bispo López de Meza: « Aqui todos adoecem, todos se esgotam e, no fim, os sacerdotes saem do seminário já debilitados e sem condições de exercer o ministério. É um fato comprovado por longa experiência. Os estudos vão mal porque todos sofrem e são frequentemente interrompidos por doenças dos alunos ou dos professores… Em uma região mais fresca, a situação mudaria: haveria mais alunos, melhor alojados, e menos despesas. Dizem que San Pedro ofereceria grandes facilidades para uma instalação confortável e pouco dispendiosa. » Em 1905 e 1906, o clima inclemente e uma epidemia mortal tiraram a vida de um Eudista, Leonardo Lopera, e de um seminarista, Miguel Ángel Muñoz.

Essas circunstâncias precipitaram a decisão. Por determinação do bispo López de Mesa, os padres Adolfo Macé, Pedro Buffet, Joaquín Evanno e Ernesto Dodard partiram para San Pedro em 30 de maio. O seminário deveria abrir em 15 de junho, e assim aconteceu. Os habitantes haviam oferecido ao bispo uma magnífica casa e sete « cuadras » de terreno para construção. Ali existira uma capela dedicada a Sant’Ana (1820–1874), propriedade de Manuel Uribe. A população os acolheu com entusiasmo.

Nas palavras do padre Gerardo Velásquez, « apareceram como simples operários do sétimo dia da Criação, sem pretensões hegemônicas nem desejo de protagonismo. Aqueles mensageiros e operários chamavam-se e chamam-se Eudistas. San Pedro de los Milagros os recebeu e ali ficaram para sempre ». Referência: Gerardo Velásquez M., Un paso audaz en la historia de los Eudistas, sobre a transferência do Seminário Menor de Santa Fe de Antioquia para San Pedro de los Milagros, LitoGlacial, Medellín, p. 11.

O Seminário Menor abriu em 15 de junho de 1906, com a presença do pároco Fernando Palacio e do prefeito Emilio Gallón. Nascido em Belén–Medellín em 1852, Palacio foi ordenado em La Montañita, Yarumal, por Joaquín Guillermo González, em 1881; foi pároco de San Pedro de 1904 a 1908 e faleceu em 20 de novembro de 1931. Durante quinze anos em San Pedro, o seminário conheceu uma surpreendente germinação e floração de vocações sacerdotais e profissionais.

A verdade histórica não pode separar o que a vida uniu. Depois do nascimento do Seminário Menor em 1906, o juniorato surgiu em 1908. Seus quatro primeiros alunos foram acolhidos no seminário. Os setenta e três sacerdotes, entre eles quatro bispos, que viveram essa relação durante doze anos e meio (1908–1921) testemunham que sua formação não foi prejudicada pela presença dos junioristas. Mesma obra, p. 34.

Idealistas e pioneiros

O Seminário Menor passou por cinco etapas antes da transferência para Santa Rosa de Osos, contando com diretores e sábios formadores.

Adolfo Macé — 1906–1909. Nasceu em Vannes em 8 de maio de 1870, foi incorporado em La Roche du Théil em 16 de abril de 1893 e ordenado em Rennes em 19 de maio de 1894. Trabalhou nos seminários de Santa Fe de Antioquia, San Pedro e Cartagena; em 1929 foi para Bogotá. Professor de teologia dogmática, literatura e ciências, organista e mestre de música, compôs missas, motetos e hinos. Participou da Assembleia Provincial de 1920. Morreu em Usaquén em 18 de novembro de 1944 e está sepultado no jazigo de Usaquén. O folheto indica 72 anos, informação que não coincide com as datas fornecidas.

Antonio Gastón — 1910–1916. Nasceu em Lorient, Bretanha, em 25 de fevereiro de 1878, foi incorporado em 8 de fevereiro de 1902, ordenado em 6 de junho de 1903 e enviado ao Panamá em 1904. A biografia o apresenta como superior de San Pedro de 1909 a 1915, depois dos seminários de Jericó, Cartagena e Santa Marta. Morreu em Cartagena em 2 de abril de 1952, aos 74 anos; seus restos repousam em Valmaría. O período da biografia difere do título no original.

Joaquín García Benítez — 1917. Nasceu em Bucaramanga em 14 de abril de 1883, foi incorporado em 26 de abril de 1909. Doutorou-se em teologia em Roma, onde foi ordenado em 18 de dezembro de 1909. Trabalhou em Jalapa, México, de 1909 a 1914, e em San Pedro de 1914 a 1917. Nomeado bispo de Santa Marta em 17 de fevereiro de 1918, foi o terceiro bispo da Congregação de Jesus e Maria. Participou das Assembleias Provinciais de 1920 e 1930. Arcebispo de Medellín de 1942 a 1958, faleceu ali em 1º de setembro de 1958, aos 75 anos; repousa na catedral metropolitana.

Yvo Andrieux Dahirel — 1918–1920. Nasceu em Pleyber-Christ, Bretanha, em 10 de agosto de 1881, foi incorporado em 8 de fevereiro de 1904 e ordenado em 23 de março de 1905. Iniciou o ministério em Santo Domingo, no seminário e na paróquia recentemente confiados aos Eudistas. Convocado pela França em 1914, prestou serviço militar até 1916. Desmobilizado em 1917, foi enviado a Jericó e eleito quarto superior de San Pedro, aos 37 anos. Por problemas de saúde, foi transferido para outros seminários da Colômbia e da Venezuela. Voltou à França em 1931. O folheto situa sua morte em Plancoët na « sexta-feira santa, 20 de abril de 1932 », aos 51 anos: indicação da fonte que requer verificação.

José Crespel Chesnin — 1920–1921. Nasceu em Théhillac, Bretanha, em 4 de maio de 1884, foi incorporado em Gyseghem em 8 de fevereiro de 1908 e ordenado em Gand em 2 de maio de 1910. Enviado imediatamente a San Pedro como professor e ecônomo, organizou como superior a transferência de 1921, determinada pelo bispo Maximiliano Crespo. Passou longos períodos em Santa Rosa, Jericó e Valmaría e participou da Assembleia Geral de 1935. Morreu em Medellín em 2 de agosto de 1968, aos 84 anos; repousa em San Pedro de los Milagros.

Outros também chegaram como pioneiros, embora não tenham sido reitores do Seminário Menor:

Pedro Buffet. Nasceu na Bretanha em 8 de julho de 1879, foi incorporado em 8 de fevereiro de 1903 e ordenado em Gand em 28 de maio de 1904. Trabalhou na Colômbia de 1904 a 1928, foi superior e construtor do seminário de Jericó, participou das Assembleias Gerais de 1911 e 1916 e da segunda Assembleia Provincial de 1920. Morreu em sua capelania de Chevilly, perto de Paris, vítima de um bombardeio em 26 de agosto de 1944, aos 65 anos.

Joaquín Evanno. Nasceu em Inxinza, Rennes, em 10 de maio de 1881, foi incorporado em 8 de fevereiro de 1904 e ordenado em Gand em 19 de junho de 1905. Trabalhou na Colômbia de 1906 a 1920 no juniorato de San Pedro, construiu a igreja de Las Angustias em Bogotá e foi capelão do Bom Pastor em Bogotá e do colégio Biffi em Barranquilla. Morreu tragicamente ali em 15 de julho de 1920, aos 39 anos; repousa em Valmaría.

Ernesto Dodard. Nasceu em Châteaubriant, Bretanha, em 10 de maio de 1878, foi incorporado em 5 de junho de 1903 e ordenado em Gyseghem em 19 de agosto de 1904. Na Colômbia de 1904 a 1929, trabalhou nos seminários de Cartagena e Santa Fe de Antioquia; foi um dos quatro fundadores de San Pedro em 1906. Pároco de Arjona por oito anos e de Turbaco a partir de 1918, tornou-se capelão do colégio Biffi em 1920. Morreu em Cartagena em 15 de julho de 1929, aos 51 anos.

O destino dos prédios do Seminário Menor

Após a transferência para Santa Rosa, sede da nova diocese, os prédios acolheram várias missões.

1922–1927: « Indocrespo », dirigido pela irmã Laura Montoya, hoje primeira santa colombiana e fundadora das Lauritas, acolhia e educava indígenas do Urabá antioquenho. Segundo o relato do folheto, as tensões e rivalidades que se seguiram à chegada do bispo missionário e fundador Miguel Ángel Builes obrigaram as religiosas a deixar « clandestinamente » a localidade; Indocrespo desapareceu.

1928: os Irmãos das Escolas Cristãs ocuparam os prédios para seu postulantado e noviciado.

1972–2026: ao deixar San Pedro, os Irmãos venderam a propriedade ao departamento de Antioquia, que a cedeu em comodato ao município para uma escola. Até hoje funciona como Escuela Gabriela González de Múnera, anexa à Institución Educativa Pío XI.

À guisa de conclusão

Há acontecimentos na história da Igreja particular e de nossa Congregação que não podem permanecer apenas na lembrança. Nascidos em um momento concreto, tornam-se sementes fecundas que continuam produzindo frutos na Igreja.

Em 2026, olhar para a transferência de 1906 não é apenas recordar o passado, mas reconhecer com gratidão a obra de Deus. O que então foi uma iniciativa e uma decisão aparece hoje como fonte de vida, vocações, serviço, evangelização e compromisso para a Diocese de Santa Rosa e a Província Eudista da Colômbia.

Façamos memória agradecida de nossos antepassados que, Corde magno et animo volenti, forjaram com sua vida e entrega o que somos e temos. Perguntemos: se responderam com intrepidez aos desafios de seu tempo, confiantes na Providência, o que estes novos tempos nos pedem para sermos uma Igreja que gera esperança? Deus guarda a resposta nas encruzilhadas da história; cabe a nós descobri-la e empreender decididamente o caminho, confiantes como Abraão que, sem saber para onde ia, acreditou nas promessas Daquele que « chama à existência o que não existe ». A grandeza desse acontecimento também se mede pela vida que continua gerando hoje.

Agradecemos, por fim, ao falecido padre Gerardo Velásquez. Seu livreto Un paso audaz en la historia de los Eudistas. Traslado del Seminario Menor de Santafé de Antioquia a San Pedro de los Milagros permitiu-nos não esquecer esse capítulo da história eudista em Antioquia. As páginas deste folheto bebem dessa fonte autorizada.

Infinitas graças lhe sejam dadas por esse dom inefável.

San Pedro de los Milagros no início do século XX

A Colômbia do século XIX, como a França no fim daquele século, sofreu o fanatismo religioso, o radicalismo partidário e a exclusão social. San Pedro não foi exceção, embora não tenha sofrido os estragos da Guerra dos Mil Dias (1899–1902).

San Pedro existe desde 1624, provavelmente como povoado de mineração: os conquistadores identificaram ouro nas vertentes do Río Chico e do Río Grande. Em suas origens havia um assentamento de pessoas negras escravizadas, trazidas da costa atlântica. O auge do ouro foi breve, pois descobriram minas mais ricas em La Ranchería, depois Villa de Jacinto de los Osos, hoje Santa Rosa de Osos. Seguiram-se pobreza e terras estéreis. Muitos emigraram para Angostura, Ituango, Carolina del Príncipe e outras áreas mais prósperas. Localidade profundamente religiosa, santuário do Senhor dos Milagres, com costumes patriarcais, San Pedro tinha 6.629 habitantes em 1912, uma população simples e pobre.

Quando os Eudistas chegaram, já existiam instituições religiosas e culturais, o telégrafo inaugurado em maio de 1876 e escolas urbanas para meninos e meninas. Gerardo Velásquez descreve a sociedade literária « Aura del comienzo », que promovia entre jovens e adultos a declamação de poesias, a leitura de composições originais, a crítica e o estudo de autores nacionais e estrangeiros. Publicava seu próprio jornal; muitas vocações literárias e profissionais nasceram ali. Luis López de Meza estava entre seus brilhantes participantes e promotores. Mesma obra, p. 12.

Que melhores condições haveria para implantar um seminário em San Pedro de los Milagros!

Fotografias e créditos

Fotografias: Arquivo da Província Eudista da Colômbia. Capela de San Pedro (sem data); ruas de San Pedro (cerca de 1917); interior do juniorato (sem data); grupo de 1917: Rafael Álvarez, A. Rissel, P. Hardy, J. Crespel, M. V., L. D., R. Nossa, Yves Andrieux, F. Junel, J. García, P. Lacroix, A. Hays; outra fotografia sem data; « Os junioristas ao muito reverendo e querido padre provincial » (cerca de 6 de novembro de 1936); fotografia de San Pedro, cerca de 1917.

Autoria: Centro de Espiritualidade São João Eudes — San Pedro de los Milagros, Antioquia. Fotografias e diagramação do original: Província Eudista da Colômbia. Agosto de 2026.